segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Leia que é bom

Se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido - por Fernando Jorge

Na noite do dia 25 de setembro de 1956, estreou no Teatro Municipal
do Rio de Janeiro a peça Orfeu da Conceição, do poeta brasileiro
Vinícius de Morais (1913-1980). Esta peça é uma adaptação do mito
grego do lendário cantor Orfeu, cuja lira, dotada de sons melodiosos,
amansava as feras que vinham deitar-se-lhe aos pés. Filho da musa
Calíope, ele resgatou a sua esposa Eurídice do Inferno, após ela ter
sido picada por serpente. A história de Vinícius decorre numa favela
carioca, durante os três dias de carnaval.

Em 1959, o diretor francês MarceI Camus transpôs a peça para o
cinema. Daí surgiu o filme Orfeu Negro, com músicas de Luiz Bonfá e
Tom Jobim, a negra atriz americana Marpessa Dawn, os negros
brasileiros Breno Mello, Lourdes de Oliveira e Adhemar da Silva.
Cheio de belas imagens, como a do romper do sol na favela, a do
aparecimento da Morte numa central elétrica, e ainda com o som dos
sambas empolgantes, a película baseada na obra do letrista de "Garota
de Ipanema", além de alcançar grande sucesso comercial, ganhou a
Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes e o Oscar de Melhor
Filme Estrangeiro em Hollywood.

Pois bem, nesse ano de 1959, uma jovem americana de dezesseis anos,
extremamente branca, sem um pingo de sangue negro, chamada Stanley
Ann Dunham, nascida no Kansas, resolveu assistir em Chicago ao
primeiro filme estrangeiro de sua existência. Foi ver o Orfeu Negro,
só com atores negros, paisagens brasileiras, música brasileira,
história brasileira. Ela saiu do cinema em estado de êxtase,
maravilhada. Adorou aqueles negros encantadores de um país tropical e
logo admitiu:

"Nunca vi coisa mais linda, em toda a minha vida."
Depois de tal arrebatamento, a jovem Stanley embarcou para o Havaí. E
ali, aos dezoito anos, ela se tornou colega, numa aula de russo, de
um jovem negro de vinte e três anos, Barack Hussein Obama, nascido no
Quênia. A moça branca do Kansas, influenciada pelo filme Orfeu Negro,
entregou-se a ele e dessa união inter-racial, nasceu em 4 de agosto
de 1961 um menino, a quem ela deu o mesmo nome do pai e que é agora,
aos quarenta e seis anos, o primeiro candidato negro à presidência
dos Estados Unidos.
Eis um detalhe perturbador: comparando duas fotografias, descobri
enorme semelhança física entre o brasileiro Breno Mello, o Orfeu do
filme Orfeu Negro, e o queniano Barack Hussein Obama, pai do filho da
americana Stanley Ann Dunham.

No começo da década de 1980, ao visitar o seu filho em Nova York, a
senhora Stanley o convidou para ver o filme Orfeu Negro. Segundo o
depoimento do próprio Barack, no meio do filme ele se sentiu
entediado, quis ir embora. Disposto a fazer isto, desistiu do seu
propósito, no momento em que olhou o rosto da mãe, iluminado pela
tela. A fisionomia da senhora Stanley mostrava deslumbramento. Então
o filho pôde entender, como se deduz da sua autobiografia, porque
ela, tão branca, tão anglo-saxônica, uniu-se ao seu pai, tão negro,
tão africano...

Não há dúvida, a sexualidade às vezes percorre caminhos misteriosos,
que alteram de modo decisivo os rumos da história universal.

Se não fosse o fascínio da branca mãe de Barack Obama pelo filme
Orfeu Negro, ela não se entregaria ao rapaz queniano, um preto
retinto.

A rigor, sem o Brasil, sem a história do poeta brasileiro Vinícius de
Morais, o filme Orfeu Negro não existiria. Portanto, se não fosse o
Brasil, jamais Barack Obama teria nascido.

Apresenta uma lógica perfeita, a nossa conclusão. E avanço mais: se
ele for eleito, o meu país, a pátria de Lula, será a causa da mudança
da historia dos Estados Unidos. Aliás, o Brasil já mudou essa
história...

Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro "Vida, obra e
época de Paulo Setúbal, um homem de alma ardente", cuja 2ª edição foi
lançada pela Geração Editorial.

Nenhum comentário:

Postar um comentário